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Wesley: Negro, com roupas simples, no meio do fogo

Deveria ter saído mais cedo do trabalho. Wesley, +-20 anos, sabia disso. Mas, por algum motivo, acabou saindo tarde.

Ao chegar no ponto, na Av. República do Chile, percebe que seu ônibus não está parando ali. As manifestações fecharam a Rio Branco, impedindo a passagem de veículos. Terá que andar até a Presidente Antônio Carlos. Nenhum problema em atravessar a passeata para isso. Tudo está indo bem, as pessoas estão apenas caminhando, pacíficas.

De repente, uma explosão mais a frente. Pessoas começam a correr, algumas em sua direção. Decide voltar, encontrar outra forma de chegar ao ponto.

Começa a andar de volta. Talvez, voltar ao prédio onde trabalha seja melhor, esperar a confusão se desfazer. Se necessário, sabe que pode dormir lá. Então se depara com um grupo de PMs, equipados com seus cacetetes e escudos, com suas borrachas de apagar ideologias.

– PARA AÍ VAGABUNDO! CALA A BOCA! CALA A BOCA!

Seus gritos de “sou trabalhador” parecem surtir algum efeito, já que apenas mandam sentar na calçada, sem nenhum tipo de agressão.

Como estava enganado! Ao sentar, pensando que perguntariam seu nome, pediriam seus documentos, verificariam que, realmente, é um trabalhador, toma o primeiro golpe. Logo chegam os outros.

Seus gritos não adiantam. A polícia, que está nas ruas para o proteger, o agride sem motivos, apenas pelo prazer de bater, se sentir superior.

Seus olhos lacrimejam pela dor, pela tristeza, pelo ódio, pelo gás. Pensa onde vai parar, se vai sobreviver para encontrar sua família, se vai parar no hospital por estar passando na rua na hora “errada”.

Polícia Reprimindo

Não é o mesmo rapaz, mas a repressão é nesse estilo. Foto: Mídia NINJA

A polícia se afasta e revista sua mochila, talvez ao perceber que profissionais da imprensa se aproximam. Quem quer ser fotografado batendo em um garoto indefeso?

Wesley levanta, reclama, chora e se faz ouvir. Os repórteres ouvem, gravam e filmam sua declaração sobre o que aconteceu. Ele mostra seus documentos, fala sobre a injustiça que sofreu, sobre como foi confundido com um marginal.

Um tenente o indica a prestar queixa em alguma delegacia. Este ou outro policial fala para ele ligar para seu patrão e pedir que venha buscá-lo. Talvez seja melhor, por segurança.

Mais pessoas ouvem sua história, que ele não tem medo de repetir. Um jovem, com aparência de militar (calça rajada, blusa preta, mas vestido como civil), tenta justificar o ataque dos policias com falas como “Você não quis dizer quem é, não se identificou”. Wesley, nervoso, mostra seus documento e informa que falou, a todo momento, que não era marginal. O jovem fica quieto.

Seu patrão chega. Um jovem de uns 28 anos, branco, com sua namorada ao lado. Sua mãe espera no carro, enquanto ele fala com Wesley, verificando se o mesmo está bem. Sua namorada pergunta a um policial próximo se Wesley está liberado. O policial informa que sim, que ele não está preso nem nada do tipo, que pode até ir à delegacia fazer a denúncia.

Wesley, negro, com cabelo crespo e roupas simples, sai chorando, abraçado com seu patrão.

*Esse texto é baseado no relato real de Wesley, um rapaz que apanhou da polícia, sem motivo, no protesto de hoje, 11/07/13, no Rio de Janeiro.

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6 comentários em “Wesley: Negro, com roupas simples, no meio do fogo

  1. A “boa” e velha política do “bater primeiro, perguntar depois.” Infelizmente, há muitos marginais travestidos de policiais agredindo, em vez de proteger, trabalhadores que, aos olhos daqueles, são marginais. Mais infeliz ainda é a mídia dar muita ênfase para essas notícias e os reais motivos dos que estão nas ruas se tornarem também marginais, pois ficam às margens da vista da maior parte da sociedade, que é facilmente manipulada. Triste!

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  2. Eu estava ao lado desse cara. Ele correu pq sabia que a policia iria ser truculenta. Ele não fez nada! Qdo a PM foi pra cima dele, eu fui junto gritando para não baterem nele. Um policial me mandou afastar e me chamou de piranha!! Ta tudo filmado!!!

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    • Eu cheguei e ele já tava de pé, ligando para o patrão. Então só ouvi o relato dele, que me levou a escrever esse texto.
      Dava pra perceber, nos olhos dele, que não era mentira. Dava pra ver que a polícia tinha, sim, agido dessa forma. Entristece bastante.
      Você publicou esse vídeo em algum lugar?

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    • Fernanda, agora que vi que você estava falando do rapaz da foto. Acabei de ver o vídeo do Jornal A Nova Democracia (http://youtu.be/0q-NUQciUvk).
      Dá pra ouvir, nitidamente, a hora que o policial te chama de piranha.
      Vergonha desses caras.

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