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Memória da Guerra

Já tinha participado de algumas incursões durante a guerra, mas nenhuma como essa. O lugar era a maior diferença. Uma pequena cidade, com casas e prédios destruídos ou abandonados. E pessoas, muitas pessoas.

Na base, o capitão havia informado que poderíamos atirar pra matar em qualquer coisa que se movesse de forma minimamente hostil. Me assustei ao ver um lugar cheio de pessoas vagando, dormindo, esperando a morte, pelas ruas e calçadas. Numa situação dessas, o sucesso só é possível com o mínimo de disparos!

Do ponto de observação, víamos o prédio que deveríamos invadir. Uma estação de comunicação se escondia no subsolo. A tensão tomou conta de mim ao perceber que o prédio era cercado por crianças. Todas sujas, com roupas esfarrapadas, mas sem nenhuma arma. Um escudo humano.

O plano era invadir quando todos estivessem dormindo. Passaríamos pelas crianças no chão e entraríamos no prédio. Esperamos o anoitecer.

Dez pessoas faziam parte dessa missão. Nos separamos e fomos cada um por um lado, cercando o prédio. Silenciosamente, começamos a passar pelos pequenos corpos que dormiam como se a guerra não existisse.

Em algum lugar, alguém fez um barulho, acordando as crianças à sua volta. O soldado apontou a arma para a primeira criança que se preparava para gritar. Ela gritou.

Depois disso, tudo aconteceu muito rápido. O tiroteio começou, soldados inimigos acertaram dois dos nossos, as crianças começaram a correr, até o momento em que o tempo quase parou para mim.

Um dos nossos soldados apontava a arma para uma criança que corria em sua direção. Eu sabia que ele ia atirar. E Sabia que eu faria algo. Algo que acabaria com minha carreira, talvez minha vida. Mas não podia deixar aquela criança tomar uma bala que não era sua, numa guerra que não era sua.

Então um vulto surgiu no meu campo de visão. O soldado atirou, mas para cima. O vulto salvou outras crianças, saltou sobre uma das paredes em escombros, derrubou dois soldados inimigos ao lançar algo que parecia um CD e sumiu na escuridão do prédio.

Lá dentro, os tiros começaram e, em pouco tempo, cessaram. Quando entramos, os inimigos estavam desacordado e amarrados com algum cabo de aço de cor preta. Ainda pude ver o vulto negro parado em uma das portas. Sua capa balançando, sua máscara com um pequeno brilho. Ele olhava para mim.

Nunca mais o vi. A guerra terminou, saímos, de alguma forma, vitoriosos e ganhei uma medalha. Mas o que nunca esquecerei, o que mais me importa, é aquele vulto que salvou nossas vidas.

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