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Sandubinha do Norte – A Cidade da Fofoca

   Isso aconteceu quando eu era ainda menino e vivia com os meus pais numa cidadezinha chamada Sandubinha do Norte, no Acre. Eu e mais oito irmãos.

     Não sei se você já foi em alguma cidade pequena. Mas acho que todo mundo sabe que, nesse tipo de cidade, as notícias voam. Todos sabem o que acontece com todos. Por um lado isso é ruim, pois todas as histórias de traições, roubos ou qualquer coisa caem rapidinho na boca do povo. Por outro lado, é bom. Todo mundo sabe quem está doente, ou precisando de algum tipo de ajuda.

     Mas Sandubinha era diferente. Nenhuma cidadezinha de interior tinha tanta fofoca quanto aquela. E não eram apenas fofocas. Eram as mais incríveis! Ninguém sabia, ou contava, como surgiam notícias como a de que seu Juca, dono do mercadinho, tinha se deitado com oito cabras ao mesmo tempo no último carnaval. Na Bahia!

     Outra notícia que surgiu foi sobre o enriquecimento de seu Jorge, dono de uma fazenda seca no pé de umas montanhas. Todos estranharam quando ele comprou o primeiro carro da cidade. Dois dias depois, o filho mais velho de dona Josefa sumiu. Depois de uns dias do sumiço do garoto, surgiu a notícia de que seu Jorge tinha encontrado ouro para as bandas de sua fazenda. O Kreydson, o filho de dona Josefa, tinha ouvido falar e foi procurar, também queria ficar rico. Seu Jorge matou o garoto e deu para uns animais que viviam perto da fazenda. Tudo isso em menos de uma semana. E as notícias surgiram já na segunda-feira!

     Até que, um dia, espalhou-se pela cidade que a Tininha, filha do prefeito, tinha ido pra cama com seu noivo, duas semanas antes do casamento! Aconteceu o que normalmente acontece em qualquer cidade pequena: o pai da moça matou o safado. Claro que todos sabiam que a Tininha não era essa santa que o pai acreditava. Ela se insinuava até para os coroinhas!

     Mas a última notícia a se espalhar, não foi essa. Contam que o prefeito, revoltado com a fofoca da cidade, por todos saberem da desgraça que caiu sobre sua família, doido pra arregaçar o fofoqueiro que começou a espalhar a história, foi se confessar. O padre Benito, falou mais ou menos assim:

– Qualquer um mataria o homem que fizesse isso com sua filha. Eu entendo, senhor prefeito. O senhor só matou o homem errado. Dia desses o Carlinhos veio se confessar. Ele não fez nada com sua filha porque gosta de homens. Até tinha um caso com o Geraldão, aquele que a mãe bebe leite com terra todo dia, pra pagar uma penitência por ter traído o marido. Quem fez isso com sua filha foi o Paulinho. Na verdade, ele já me confessou que fez isso com várias meninas da cidade. Só me espanto com a ousadia de fazer isso com a filha do prefeito.

     Como todos sabem, padres não deveriam contar o que acontece no confessionário.

     No dia seguinte, o padre amanheceu pendurado pelo pescoço, na porta da frente da igreja.

     Eu nem sei o que ocorreu depois. Meu pai tratou de me mandar pra São Paulo antes que o prefeito me pegasse. Nunca mais me confessei.

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