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Star Wars: Episódio 4 (A Batalha Final)

Sábado, 19/12/2015

12:11

É hoje, diria Ludmilla. Após todos esses dias de tensão, estarei livre para ler e ouvir o que for, sem preocupação com spoilers. Porém, ainda existe um shopping a enfrentar. Babaca é mato, dá de monte em qualquer lugar.

Esses dias, ouvi falar de um plugin pra navegadores que impediria spoilers. Antes mesmo que eu pudesse pensar no método utilizado, alguém já tinha burlado o sistema.

Não tenho tanto problema com gente que, por descuido, acaba soltando alguma revelação importante da história, mas com a galera que faz isso de propósito, por crueldade. Não me espanta que amizades acabem. Como chamar de amigo alguém que não te respeita?

15:44

É chegada a hora. Na verdade, uma fila kilométrica de pessoas com lugares marcados. Vai entender..

E o carro, que enguiçou no meio do caminho, numa via de alta velocidade, sem acostamento, em cima da bifurcação. Grazadeus, um reboque por perto, que nos deixou atrás do Shopping.

Espero que o filme ainda não tenha começado..

15:54

Por uma falha de comunicação dos lanterninhas (é assim que chama as pessoas que pegam os ingressos?), furei fila! Os caras “criaram” outra fila pra adiantar o processo. Prevendo a zona, me enfiei logo onde um cara estava chamando “próximo da sala 04” e ninguém ia. Assim que passei, a moça da outra fila (para a qual todo mundo migrou) falou que ela não existia, ela só estava ajudando.

No momento, trailers. Deadpool, Mulan Mogli. 3D na moral.

20:41

Ok, não apenas na moral. O 3D mais loco que já vi (já tinha falado que ia rolar IMAX?).

Enfim, termina a saga (a minha), com apenas um spoiler tomado. Que filme! Quis gritar em alguns momentos, mas não era pré-estreia, então segurei a onda. Coisa que não fez a galera que bateu palmas no começo e no final do filme(?)

Agora já posso voltar ao convívio humano.

 

 

 

(Sim, eu sei que tá atrasado, mas tivemos alguns problemas e esse blog não é mais importante que as pessoas envolvidas.)

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Star Wars: Episódio 3 (O Spoiler Contra-Ataca)

Sexta, 18/12/2015

01:10

Eu dei mole. O bom evitador de spoiler sabe que qualquer lugar é lugar e, por isso, não entra em lugar nenhum.

Terminando o dia, parei de quebrar a cabeça com código e resolvi jogar uns dez minutinhos. Tudo muito bom, tudo muito bem, até ver um usuário de nome “fulano morto por ciclano”. O coração parou na hora. Acabou o jogo. Acabou tudo. Tomei spoiler. E, pra alguém colocar isso no nome de usuário, deve ser apenas o maior spoiler da história.

Uma parte pequena do meu ser ainda tem esperança de que seja apenas zuera. Mas, conhecendo a humanidade da qual faço parte, a frase ecoa no vazio da alma, que não consegue ser preenchido nem pela raiva.

Vai ser um dia amargo.

19:36

Hoje minha perda de memória recente se tornou minha maior dádiva. Passei o dia inteiro sem pensar no spoiler tomado. Falta de sono tem dessas coisas.

Voltei a conversar em grupos do Telegram e do Whatsapp. Meus amigos são confiáveis, eles não vão soltar spoiler. Até o momento que eles começaram a falar de uma conversa sobre spoilers verdadeiros e falsos que teriam soltado em uma outra conversa. Fiquei apreensivo.

Agora, olhando apenas o preview de uma mensagem, já vi algo do tipo “Beltrano morreu” e eu já não sei mais o que pensar, apenas sentir. Mutes aplicados, apenas por precaução.

Vi alguém falando que é bobeira acabar amizade por causa de spoiler, acho melhor não arriscar. Minha sessão é amanhã, meus amigos conseguem sobreviver esse tempo sem mim.

O pior é que eu tô aqui, no trem, sem fone de ouvido, ambiente propício para a propagação de spoilers e não ouço ninguém tocar no assunto. No meio dos meus, o pavor.

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Star Wars: Episódio 2 (Uma Nova Desesperança)

Quinta, 17/12/2015

07:16

Acho que minha esposa não viu o filme, ainda.

Ontem quase não paguei o cara da barraquinha de açai. Um bom evitador etc..

Quando você programa para o melhor serviço de mensagens instantâneas, você precisa testar. E foi assim que acabei abrindo o Telegram ontem. O que eu não sabia era o que viria depois.

Fecharam o Whatsapp. Menos uma provável fonte de spoilers, mas isso me forçou a voltar de vez para o Telegram. Sim, estou tomando todos os cuidados, estou evitando grupos, evitando ler os nomes das pessoas, evitando ler as mensagens que elas mandam.. Vai que, né?

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Star Wars: Episódio 1 (Sem Spoilers)

Quarta, 16/12/2015

00:20

Comecei agora a minha dramática redução de interações com seres humanos na tentativa de minimizar os riscos de spoilers de Star Wars : O Despertar da Força.

Desloguei do meu Telegram, desativei as notificações do Twitter, fechei a aba do Ello. A outra rede eu já não uso mesmo..
No momento, estamos eu e minha esposa em casa. Acredito que ela ainda não viu o filme, então estou tranquilo. Por enquanto.

07:15

É estranho não checar as mensagens no Telegram pouco tempo depois de acordar. Não é à toa que ele é o primeiro app na minha tela de bloqueio. Mas estou vivo.

Minha esposa ainda está dormindo. Continuo acreditando que ela ainda não viu o filme. Sem contato com outros humanos, por enquanto.

20:16

A rua é um ambiente perigoso para o evitador de spoilers. Num momento você está andando, prestando atenção no barulho que seu sapato faz na calçada, é um barulho engraçado, talvez tenha água no seu sapato, talvez seja hora de comprar um novo, no outro, alguém comenta “naquela hora que fulano morreu…” e pronto, você não precisa de mais informação, você conhece muito bem a única pessoa de conhecimento geral da população que tem um nome tão estranho quanto de fulano. Foi-se sua tão guardada experiência única inédita.

Não, não aconteceu comigo, mas é possível perceber que passei boa parte do dia pensando nisso. Um bom evitador de spoilers tem que estar sempre desatento, sempre distraído, as outras vozes não podem passar de ruídos, seu cérebro não pode converter ruídos desconexos em informações lógicas. E isso é muito difícil de fazer quando é seu objetivo.

Dica: um bom fone de ouvido com isolamento e uma pitada de antipatia ajudam um bocado.

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Homens, por favor..

Entrei no restaurante, peguei o prato e percebi alguém me olhando. Era um homem, alto, branco, forte e com um sorrisinho na boca. Não entendi, beleza, continuei o que estava fazendo.

Preparei meu prato e fui até uma mesa, querendo almoçar sozinho e em paz. Acabei sentando próximo ao cara. Ele olhou pra mim e desejou “bom apetite”. Eu, bem educado, agradeci e comecei a comer.

Nesse momento, ele virou um pouco o corpo no banco em que estava, de forma que pudesse me olhar com mais facilidade. Quando ele fez esse movimento, cheguei a pensar que fosse sentar na minha frente.

Quem é esse cara? Por que ele tá me olhando? O que ele quer? Será que é assaltante? Ou um sequestrador? Talvez alguém que me viu andando de bicicleta pela rua.. Um motorista revoltado? Um taxista que ganhou reclamação? Será que vai me esperar lá fora? Vai me bater? Me levar? Me roubar? Me passar a mão?

Depois de muito me encarar, levantou, deu tchau e foi embora. Ainda fiquei um tempo apreensivo, achando que ele estaria lá fora me esperando.

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Com o advento da redes sociais, dos smartphones, da Internet sempre conectada, passamos a ouvir vozes que, até um tempo atrás, tinham pouco alcance. As mulheres, feministas ou não, passaram a expor mais seus incômodos. E o homem, que tava acostumado a não ouvir, não gostou.

Mudanças causam desconforto, vontade de voltar a ser como era, e foi isso que aconteceu com o homem. Em vez de aceitar e tentar entender o que estava ouvindo, decidiu que era melhor não ouvir. Então começou a chamar as mulheres de feminazi só porque elas falaram que não gostam de receber cantadas.

Com a mente fechada para as informações novas sobre a realidade, o homem desacredita do que não percebe. E é por isso que relatei aquilo ali em cima. Porque o que eu passei, o medo que senti, a desconfiança, foram reais. E isso acontece comigo, sei lá, uma vez a cada dez anos.

Com mulheres acontece praticamente todo dia!

Sabe o que é pior? É a gente mesmo que causa isso. Quantas vezes não fiquei olhando pra uma menina que considerei bonita? Quantas vezes não fiquei encarando?

Você, homem, pode estar pensando “ah, mas quando eu fico olhando não é por maldade”, “eu tenho boas intenções”, “eu não sou um estuprador”. Então pensa mais um pouquinho e me diz: como uma mulher consegue saber disso? Mulheres ganharam poder de ler mentes só porque você as acha bonitas? Ou você acha que é bonito, feio, rico, pobre, qualquer coisa demais pra ser confundido com um cara que poderia violentar alguém?

Agora pega aquilo ali que eu senti e multiplica. Multiplica pela intensidade, pela frequência, pela certeza de que alguém vai falar “ah, deixa disso, ele só tava tentando ser gentil”. Multiplica pelos casos que estão sempre saindo na mídia: mulheres sendo sequestradas, violentadas, mortas por um cara que as achou bonitas. Multiplica pelo que a gente sempre vê/ouve de mulheres que foram assediadas em transportes públicos e ninguém saiu do seu canto pra defendê-las.

Será que não dá pra acreditar no que elas estão falando? O problema, como nos casos de racismo, homofobia, gordofobia e outros, é que “se não aconteceu comigo, não existe”, como se fossemos a primeira página de resultados do Google.

Vamos sair um pouquinho dessa nossa confortável posição encurvada olhando para o próprio umbigo e tentar entender melhor a realidade. Isso já ajuda um tanto.

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Deixa o passado lá

Hoje em dia, no caminho pro trabalho, só presto atenção no relógio três vezes: quando saio de casa, quando faço a baldeação pro metrô e quando chego no prédio. Antigamente não era assim, eu olhava pro relógio a toda hora e ficava pensando em como ia chegar atrasado, que eu deveria ter saído mais cedo, que o trem deveria andar mais rápido.

Então por que, hoje em dia, eu leio tranquilamente, ouço podcasts e escrevo textos, por mais atrasado que esteja? Porque eu percebi que o passado não tem esse nome à toa. Se chama passado porque, veja só, já passou. Pode parecer óbvio, mas não é.

Continue lendo. Você já tá atrasado mesmo..

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O Dia do Juízo Final

Então, no Grande Dia do Juizo Final de Toda a Humanidade e seus parentes próximos, humanos e humanoides foram reunidos na face da terra para ouvir o destino de suas pobres almas.

Pessoas desesperadas tentavam ajudar uns aos outros, na tentativa de fazer um último benefício aos seus semelhantes para alcançar a benesse do todo poderoso. Claro que esse não era o momento pra isso, então ouviu-se uma voz do céu:

— Acabou o tempo, galera. Parem o que estiverem fazendo, porque chegou a hora. Todos de pé! — disse um anjo.

Todos que estavam deitados, em todas percentagens possíveis, ficaram 100% em pé e olharam para o alto. Uma luminosidade surgiu em todo o céu e dela veio uma voz dizendo “Podem se deitar.” Algumas pessoas deitaram 50%, outras 75%, uns mais afobados foram até os 127%, mas o momento fez com que não se ferissem. Então a voz bradou:

— Tá certo, hora de começar o julgamento de vocês. Vamos resolver logo isso pra todo mundo ir logo pra onde tem que ir e eu voltar a fazer o que eu quiser fazer.

A humanidade permaneceu em silêncio, aguardando seu destino. A voz, novamente, fez-se ouvir:

— Cadê o João? Traz logo João aqui pra gente acertar as contas.

Esperando que o João barbudo das histórias da bíblia aparecesse, o povo ficou perplecto ao ver um homem, bem velhinho, com bigodes brancos, assim como o que sobrava do seu cabelo, ser elevado da Terra em direção a um patamar que acabara de surgir entre eles e a fantástica luminosidade.

Mr. Moulin, nas nuvens, olhando para o alto

Mr. Moulin, do incrível curta Même les pigeons vont au paradis

— Oi, João, tudo bem? Tudo sim, eu sei. Então, João, te chamei aqui porque quero saber o que você tem a dizer sobre as merdas que cês andam fazendo com a porra do universo, João. Cês tão cagando tudo, João. João, me diz, o que eu devo fazer com vocês, João?

— Como assim, Senhor? Eu não

— “Como assim”?! João, deixa eu abrir aqui a lista. Você roubou dinheiro da sua mãe quando era adolescente, amarrou bombinha no rabo de um gato, dirigiu chapado, João! Além disso, o número de vezes que você furou o sinal vermelho e passou do limite de velocidade seria suficiente pra quebrar o contador do youtube novamente! Ah, e ainda tem aquele caso, daquela menina

— Senhor…

— Não me interrompe, João! Caceta! Abusado. Aquela menina que você filmou enquanto ela tomava banho. Cê acha o quê, João? Que só seus amiguinhos viram? A torcida do Corinthians inteira viu aquele vídeo, João! E sabe quem mais? EU VI! — Um leve tremor percorreu a Terra. — E é por isso que eu tô perguntando: o que você tem a dizer que possa defender a humanidade depois de tudo isso que vocês fizeram?

Do meio da multidão, uma pessoa levantou a voz:

— Opa, peraí, Senhor, com todo o respeito. Deixa eu ver se entendi. O Senhor tá julgando a humanidade pelo que esse João aí fez?

— É. Algum problema?

— Então, Senhor. Eu não acho que isso seja justo. João é só um humano, não a raça humana toda. Cada um deveria ser julgado de acordo com o que fez, não todos pelo que esse coroa fez.

— Deixa eu te contar uma história:
“Numa de minhas aparições pela Terra, teve uma vez que eu falei um monte, sobre um monte de coisas. E eu me lembro bem que uma das coisas que falei foi “mano, cês vão ser julgados da mesma forma que cês tão julgando os outros, se liga”. E vocês, cagando um monte pro que eu disse, tão aí julgando todo mundo enquanto olham pra um indivíduo só.

“Se a pessoa atravessa fora da faixa, cês já vem logo com um “olha lá. ninguém quer usar a faixa. depois morre aí e fica reclamando.” Se mata outra pessoa, “ser humano não tem jeito. tinha era que matar todo mundo.”

“Não é assim que cês fazem? Agora fica aí no teu canto que eu tenho que resolver isso aqui.

E, assim, a humanidade foi julgada. Pelo seu próprio critério.